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Quem senta na cadeira do seu lado

O que realmente importa na hora de escolher o profissional que vai te representar


Lembro da primeira vez em que uma mulher sentou na minha frente e perguntou, quase sussurrando, se ela precisava mesmo “contar tudo” para a advogada. Não era medo de julgamento moral. Era exaustão. Ela já tinha repetido a história para a mãe, para a amiga, para a terapeuta, para o RH... Estava no osso. O divórcio ainda nem tinha começado formalmente, mas o corpo dela já estava em modo sobrevivência, naquele momento de “quero mais é resolver logo, não importa como, doutora...”. Ali ficou claro, de um jeito meio brutal, que escolher um advogado não é uma decisão técnica isolada: é uma decisão sobre quem vai ocupar a cadeira ao seu lado enquanto você tenta não desmontar; quem vai falar por você, literalmente.


O mercado jurídico adora fingir que o divórcio é um contrato mal-sucedido. Eu, sinceramente, não vejo assim: estive num relacionamento por quase dez anos, estando casada por cerca de 2 anos e meio, e dizer que gastei quase um terço da minha vida numa furada é ser injusta comigo, com ele e com a história que tivemos juntos (que não foi composta somente por momentos ruins, é claro – se fosse assim, não teria durado tudo isso, eu prefiro crer).


Divórcio é ruptura de projeto de vida com efeitos patrimoniais, parentais e psíquicos que não cabem em petição padrão. Como eu digo sempre, “cada caso, um caos”, porque é exatamente assim que a gente vê quando está dentro do olho do furacão.


Tratar isso como mero litígio é conveniente para o sistema porque transforma a dor em um procedimento e o cansaço em estatística. No entanto, para a mulher que está no meio do processo, o que está em jogo não é só “ganhar” ou “perder”. É sair viva de uma realidade que drena forças, energia, tempo e dinheiro.


Aqui entra um ponto pouco debatido, mas decisivo: o advogado que você escolhe pode ser fator de estabilização ou de colapso. Tem profissional que se alimenta do conflito, estimula microguerras, incentiva respostas atravessadas, promete vingança com direito a barraco na audiência e até dá voz de prisão ao juiz quando é solicitado que os ânimos se contenham.


É circo, mas há quem venda como a defesa dos sonhos, pois o inconsciente coletivo tem essa marca de que, se não tiver sangue escorrendo, o advogado não trabalhou direito. Isso ficou muito claro pra mim, lendo um trecho do livro Não fossem as sílabas do Sábado, de Mariana Salomão Carrara (que inclusive é Defensora Pública): “Madalena aquele dia falava do acordo e ficou muito claro pra mim que ela não entendia qual o verdadeiro propósito de um processo. É preciso que eu tenha o meu advogado e você o seu e então nós botamos os dois para brigar feito uma rinha de cães, é preciso que eles escrevam atrocidades, saiam de cada combate com as gravatas mordidas rasgadas, degolados, enquanto nós vamos nos apaziguando nesse exagero, acendemos um cigarro cada uma sob uma árvore murcha na porta do fórum, e estamos resolvidas”.


Na prática do Direito de Família, muitas vezes é só irresponsabilidade estratégica, penso eu.


Conflito prolongado rende honorários, mas cobra juros altos da saúde mental de quem está do outro lado da mesa e, geralmente, não é o advogado que paga essa conta. Falo sempre: a vida durante o processo não deve ser um Big Brother porque não conseguimos levar os acontecimentos em tempo real para análise jurídica. Enquanto a realidade acontece 24 horas por dia, 7 dias por semana, o Fórum só abre de segunda a sexta-feira, das 9h às 19h, sem contar os 60 dias de férias do magistrado, sabe?


Advocacia de família não deveria ser palco para o ego de ninguém: nem do cliente, nem do advogado, nem do juiz. É por isso que eu recomendo muito que as pessoas assistam ao filme da Netflix “História de um Casamento” (Marriage Story - 2019). Por mais que eu me identifique muito com o primeiro advogado contratado pelo Charlie, personagem do Adam Driver, e acredite que ele é que é o melhor dos três perfis que aparecem no filme, minha prática demanda que eu tenha uma linha mais híbrida, como a da Nora Fanshaw, personagem da Laura Dern, que levou o Oscar de melhor atriz coadjuvante por esse papel. Para mim, um advogado de família precisa estar atento aos detalhes, torcendo para o acordo, mas mostrando os pontos cegos do cliente, sempre que possível, e preparando o território para o tanto de frustração que pode aparecer no caminho.


A escolha do advogado deveria passar por uma pergunta simples, ainda que desconfortável: essa pessoa consegue pensar no que é melhor pra mim, quando eu estiver emocionalmente incapaz de fazer isso? Haverá dias em que isso vai acontecer. Muitos. E o advogado é quem vai falar por você, seja em um ambiente de acordo, seja em um ambiente de litígio. O processo é seu, a história é sua e o peso dessa escolha também, ainda que o resultado não seja o idealizado.

A racionalidade emocional não nasce da frieza; nasce da lucidez. E lucidez, em contexto de separação, frequentemente precisa ser terceirizada por algumas horas. Um bom advogado não compra todas as suas dores como se fossem teses; na realidade, deve ser o contrário: eu sou uma advogada que estuda e, atualmente, estou desenvolvendo uma tese de doutorado, mas entendo que as questões polêmicas tratadas na Academia nem sempre podem ser tratadas no Judiciário.


Isso acontece exatamente porque jogar com a vida do cliente para emplacar uma tese é, de novo, um jogo de ego, e não tem nada a ver com a função para a qual o advogado foi contratado. Por isso, cuidado: escolha seu advogado como quem, por exemplo, escolhe um cirurgião cardiologista. Dermatologistas são médicos, mas não acredito que você queira essa expertise em evidência para alguém que vai operar seu coração, certo?


O advogado escolhido precisa ter aquele match inicial, já na primeira consulta. É importante racionalizar se você sente que consegue confiar nele, mesmo quando ele te disser um sonoro NÃO, pois em alguns momentos o “sim” que você tanto deseja ouvir só vai alimentar o caos no processo em curso. É possível unir profissionalismo com humanidade e, na minha opinião, o produto disso é cuidado estratégico.


Vejo diariamente mulheres confundindo acolhimento com concordância irrestrita e tenho muita dificuldade em aceitar que sororidade[1] seja mesmo isso. No processo judicial, pelo menos, não é a mesma coisa: há uma série de limitadores técnicos e, como bem sabemos, nosso legislativo é majoritariamente masculino, hétero, branco, rico e cercado de incontáveis privilégios. Com isso, se a ideia for contratar uma justiceira, pode ser que o resultado não seja exatamente Justiça, com evidência no trocadilho[2], devo dizer.


Qualquer profissional do Direito que apenas valide cada impulso seu, sem organizar prioridades, não está te protegendo: está terceirizando a responsabilidade da sua atuação profissional. Advogado não tem obrigação de fim; ou seja, ele não é obrigado a garantir que você irá “ganhar” o processo, o que de nenhuma forma quer dizer que ele pode ser leviano com suas dores e desejos e desconsiderar o que pode e o que não pode ser conquistado judicialmente. O Direito de Família exige capacidade de sustentar frustração, inclusive a sua frustração enquanto cliente, para preservar o que importa no médio e longo prazo. O mais importante é te ajudar a equilibrar os pratinhos, escolhendo quais batalhas valem a pena e quais não.


Em contextos migratórios, essa escolha pesa ainda mais. Longe da rede familiar, com idioma às vezes truncado, sistema jurídico desconhecido e pouca margem de erro, a advogada vira quase uma extensão da sua capacidade de leitura da realidade. Não é exagero. Um erro de estratégia pode custar direito de residência e/ou guarda e circulação internacional dos filhos. Por isso, eu topei o convite da minha querida amiga, Ludiana Moreno, psicóloga e psicoterapeuta clínica, e também mestranda em Psicologia e Psicopatologia na Clínica Psicanalítica, e participei do Podcast: Eu, ela e a mãe que eu sou, disponível no Spotify. Lá, falamos com um pouco mais de profundidade sobre o contexto francês, mas há insights que valem para qualquer expatriada que se encontre nessa situação.


Voltando ao ponto de como escolher um advogado: não é sobre procurar quem “ganha tudo”, porque isso não existe, e sim quem terá sagacidade, conhecimento técnico e habilidade para identificar, com precisão, quais batalhas valem a pena ser travadas e quais só alimentam a máquina do desgaste. É necessário buscar um profissional capaz de entender que silêncio também é movimento, que recuar ou manter o que já se tem não é sinônimo de perder, que acordo não é sinônimo de capitulação e que provar que o outro está errado nem sempre gera efeito jurídico, mas irrita profundamente um juiz que tem 10.000 casos para serem analisados na mesa, e está perdendo tempo com o joelho ralado do seu filho que caiu da própria altura, brincando no parquinho, completamente desacompanhado do pai – Pasme, Excelência!


Além disso, não dá para fingir que honorários não existem porque ideologia nenhuma paga boleto, e processo não anda por iluminação espiritual. Para quem não tem condições de contratar advogado particular, o Brasil conta com a Defensoria Pública, que cumpre um papel constitucional relevante e atua em divórcio, partilha, guarda, convivência e alimentos. Isso precisa ser dito sem constrangimento e sem romantização.


No campo da advocacia privada, porém, o jogo é outro e o céu é, de fato, o limite.


A tabela de honorários proposta pela Ordem dos Advogados do Brasil funciona como parâmetro mínimo ético, não como preço tabelado, e está muito longe de significar que aquele é o valor exato a ser cobrado. Por isso, ler o contrato de prestação de serviços com atenção cirúrgica não é detalhe técnico, é mecanismo básico de autoproteção, e você pode precisar de ajuda para escolher o que convém e o que não.


Também não faz sentido esperar pagar honorários mínimos para contratar um advogado especialista, com carreira consolidada, produção intelectual, sala de aula, pesquisa e engajamento real na matéria, título acadêmico de verdade, não o “doutor” ornamental. Repertório custa tempo, estudo, risco e responsabilidade, e isso agrega valor.


Ao mesmo tempo, é um erro pagar como se fosse ouro maciço por quem ainda está começando e não tem bagagem técnica ou prática que sustente o preço cobrado. Honorários não são prêmio moral nem punição simbólica, mas a tradução econômica da experiência, do risco assumido e do trabalho que será efetivamente feito, e ignorar isso costuma sair caro depois.


A discussão nunca foi apenas sobre ter um advogado agressivo ou conciliador, pois essa oposição é rasa e não sustenta uma decisão séria; o que importa é saber se a pessoa pensa o processo como xadrez ou se reage como quem empurra peças ao acaso enquanto o prédio pega fogo, já que estratégia exige leitura fria do conjunto, antecipação de efeitos e coragem para contrariar fantasias de controle (de quem quer que seja, hein?), porque quem promete vitória total ou paz garantida não está vendendo técnica, está vendendo ilusão, o que costuma ter um preço alto.


No fim, escolher quem te representa é um gesto de autopreservação emocional, é recusar o desgaste de explicar o evidente, escapar das brigas encenadas para plateia nenhuma e aceitar que nem toda dor precisa virar peça processual. Divórcio não se atravessa com heroísmo solitário, mas com lucidez compartilhada, e isso começa, goste-se ou não, na escolha de quem vai segurar o mapa enquanto você ainda está tonta demais para conseguir enxergar o caminho.


[1] Sororidade é um conceito político do pensamento feminista que designa a solidariedade ética e estratégica entre mulheres, fundada no reconhecimento de uma condição estrutural comum de opressão de gênero, ainda que atravessada por diferenças de classe, raça, sexualidade e outros marcadores sociais; não se confunde com afeto, empatia ou amizade, mas opera como posição política consciente voltada à ruptura da lógica patriarcal de rivalização feminina e à construção de alianças para a transformação das estruturas que produzem desigualdade, pressupondo consciência de gênero, responsabilidade coletiva e ação concreta, sem implicar adesão acrítica, silenciamento de conflitos ou apagamento das hierarquias internas entre mulheres.


[2] Aqui, quero dizer que ser justiceira significa agir a partir de um juízo moral individual, imediato e autolegitimado pela dor de outra mulher, substituindo as instâncias institucionais ou coletivas de responsabilização por uma lógica de punição pessoal, frequentemente guiada pela emoção, pela urgência ou pela sensação subjetiva de correção; fazer justiça, ao contrário, implica submeter o conflito a critérios normativos, procedimentos reconhecidos e garantias mínimas de devido processo, ainda que criticáveis ou imperfeitos, deslocando a resposta do plano da vingança ou da reparação privada para uma lógica pública, racional e controlável de responsabilização. Mas vale lembrar (sempre vale!) que o Poder Judiciário jamais será sinônimo de Justiça, certo?

 
 
 

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